A Clavícula de Salomão – parte 1 – arquivo para download (formato A4, próprio para impressão)

A Clavícula de Salomão – parte 1 – arquivo para download (formato A5, próprio para e-book)

A CLAVÍCULA DE SALOMÃO (PARTE I)

por Fernando H. F. Sacchetto – 25/05/2011

Tudo começou com um camarada do Paulinho.

“Tô te falando, o cara era um zero à esquerda”, ele estava explicando. “Não catava mina nem com reza brava. Hã… modo de dizer. Já te explico.”

“Explica o quê?” Parecia mais uma das histórias compridas do Paulinho, e minha paciência estava começando a se encher por antecipação.

“Deixa pra lá. O negócio é que ele era o maior mané, e não era só com mulher. Tava sempre duro. Ele vivia no O’Malley’s pra pagar de burguês…”

“Igual a você, né?”

“Vai se ferrar. Mas ele só chupinhava de todo mundo, fazia o possível pra galera pagar a birita dele. E, quando ele pegava alguma coisa, era só dragão.”

“Beleza, entendi, era um loser. Mas e aí?”

“Aí, esse sábado eu esbarrei com ele, na festa de uma prima da minha mina. Mano, fiquei de cara. Ou o malandro engana muito bem, ou ele tá investindo pesado na Bolsa, e ganhando. Diz que, só semana passada, ele faturou mais de 100 mil no intraday.”

“Ué, isso é fácil pra caramba. Que cara é essa? Lógico que é! Qualquer ridículo pode encher a cara de bebida e dizer numa festa que faturou 100 ou 200 mil com intraday ou sei lá o que mais.”

“Tá, tá, tudo bem, mas o cara tava diferente. Tinha, sei lá, alguma coisa nele…”

“Cê tava gamadão, né? Vai, fala a verdade, tava querendo dar uma sentadinha?”

“Vai te catar! Tô dizendo que tinha um monte de gatas em cima dele. Sei lá, ele vinha com uns papinhos mó nada a ver, e elas davam o maior mole.”

“Também, ganhando 100 pila por semana…”

“Cê não disse que era conversa? Te peguei, hein, manezão? Enfim, mesmo com roupa de marca e tal, ele tava sinistro. Você não acreditava. Mas o pior não é isso.”

“Que foi, ele te levou pra casa?”

“Cala a boca. Sabe o quê que ele disse que tinha acabado de comprar? Vai, diz aí!”

“Que tal você parar de enrolar e falar logo?”

“A Helmbrecht! Cara, tá ligado, né? A alta violenta que ela teve hoje? Que ninguém previu, em lugar nenhum?”

Agora estava começando a ficar interessante. “É, pra ser coincidência, isso é muita sorte. O cara te disse por que ele tinha comprado, como ele sabia?”

“Meu amigo, aí é que o bicho pega. Por isso é que eu hesitei quando eu falei de reza brava.”

“Vai me dizer que foi medalhinha de Santo Expedito?”

“Não, mas também não tá longe disso. Então, não sei se eu falei, mas ele participa de um tal dum clube de xadrez que mexe com uns negócios meio esquisitos.”

“Mais esquisito que simplesmente montar um clube de xadrez?”

“Sei lá, do jeito que ele fala, nem parece que o negócio deles é xadrez mesmo. Parece que é tudo meio secreto, um tipo de maçonaria. Rituais, e tal. Ele só soltou o que ele soltou no sábado porque tava chapadão.”

“É, meu amigo, as coisas que se libera quando se está bêbado… Cuidado aí…”

“Pois é. Ele sempre foi meio misterioso com isso, mas deixava a entender que eles estudavam uns troços meio, assim, de ocultismo.”

“Hã.” Mais que interessante. “Tipo, o que, simpatias, macumbas, como é isso?”

“Eu sei lá, não faço a menor ideia, mas simpatia não parece ser o tipo de coisa desses caras. Difícil imaginar esse maluco botando um santo de cabeça pra baixo.”

“Nunca se sabe. As pessoas que você menos imagina tão por aí acendendo vela com pedaço de cabelo seu, ou seja lá o que for.”

“Pode até ser, mas voltando ao tal clube… pelo que o sujeito falou, eles andam fazendo rituais com um negócio que você nem imagina. Quando ele falou isso, eu larguei a mão dele, é muita balela pra minha cabeça.”

“Mais do que você tá acostumado a contar? Difícil acreditar.”

“Você sacaneia, mas não foi você que teve que ficar ouvindo um cara falar que tem a droga da clavícula do Salomão. Dá pra acreditar num troço desses?”

Tudo estava começando a se encaixar, ainda que não fizesse tanto sentido assim. “Na verdade… dá pra acreditar tranquilamente, sim.”

“Quê?! Peraí, meu chapa, a clavícula do Salomão? Um cara que teria vivido no meio do Oriente Médio faz sei lá quantos mil anos? E um bando de trouxas pé-rapado que se reúne num sebo, aqui em São Paulo, tem um osso dele?!”

Eu sorri. A cara de incredulidade do Paulinho valeu a minha paciência. “E quem foi que falou em osso? Isso mesmo, não tem osso nenhum. Eu acredito que esses caras têm essa clavícula justamente porque eu também tenho.”

“Ah, rapaz, pára com isso! Cê tá me sacaneando, né? Pode desarmar essa cara de paisagem, eu sei que você é doido, mas não a esse ponto!”

“Tô falando pra você, não tem nada de mais. Não é uma clavícula no sentido de osso… na verdade, isso é um livro. A Chave Menor de Salomão, ou, em latim, Clavicula Salomonis. É daí que vem o nome.”

“Putz grila, sério? E eu aqui imaginando os caras pegando uma clavícula e mexendo por aí que nem uma varinha mágica… Mas como você tem um troço desses?”

“Ué, cara, internet. Hoje em dia é difícil achar um livro que não tá lá. Se quiser, eu te passo o PDF.”

“Sai pra lá, não quero saber desses troços magia negra não, cara!”

“Que foi, tá com medinho? Tá tremendo de medo do capeta, né?”

“Nada, eu acho que isso tudo é babaquice mesmo, mas vai saber… Se bem que desse jeito, PDFzinho num pen-drive do Paraguai, nem tem graça. Achava que esse tipo de coisa era pra ser um livrão, sinistraço, antigão, sabe como é?”

“Sem galho – é só imprimir, fazer uma capa bacaninha de couro, envelhecer o papel com chá de maçã e meter uns grampos. Mas tá, tudo bem, eu sei do que você tá falando. Livro antigo é caro pra caramba, item de colecionador, mas pra que gastar dinheiro se dá pra pegar o scan na net de graça?”

“Que seja, tanto faz. Mas sério que você tem isso? Você, Renato, o físico ateu, defensor da ciência e inimigo do obscurantismo, com mestrado em quântica e tudo? Não é por nada não, mas o que diabo você tá fazendo com um livro de ocultismo?”

“Qual é o problema? Conhecimento é conhecimento, meu chapa. Tá, o método científico passa longe da cabeça dos malucos que escrevem esse tipo de parada, e praticamente tudo você explica com cinco minutos de análise e ciência de colegial, mas mesmo assim é legal saber como é, o que eles pensam, como chama, e por aí vai. Curiosidade mesmo. Não é ela que é a alma da ciência?”

“Eu, hein… Mas então, e a tal da Clavícula, o que tem nela? Feitiços, maldições?”

“Não exatamente. Ela tem várias partes, mas a mais conhecida é a Ars Goetia, que é a que ensina como invocar demônios. Sério, tem tudo lá, o desenho do círculo mágico, instruções, e toda a ficha de 72 demônios com nome, título, habilidades, e tudo mais. Vem no meu computador, dá só uma olhada.”

Fomos à minha mesa, e rapidamente achei o livro em meus arquivos. Paulinho estava tentando dar uma de gozador, mas não pôde esconder uma certa empolgação quando o abri. LEMEGETON CLAVICULA SOLOMONIS. “Tá vendo aqui?”, mostrei. “Editado e material adicional por Aleister Crowley. Cara famoso, do começo do século 20. Tudo o que você for procurar de magia hoje tem o dedo desse cara. Até o Black Sabbath tem uma música sobre ele.”

“Ah, claro, porque é isso que determina que…” Ele parou no meio do caminho e olhou boquiaberto quando desci para o círculo mágico. “Cara, que da hora! Cheio de runas e pentagramas e sei lá o que mais!”

“Runas não, isso aqui é só hebraico mesmo. São nomes religiosos, de anjos ou alguma coisa assim. Quase tudo aqui tem a ver com Deus ou anjos.”

“Peraí, mas esse troço não era pra chamar demônios? Como assim, Deus?”

“É isso mesmo, esse tipo de magia procura usar o poder de Deus e tal pra prender os demônios. Tipo, teoricamente, se você usa isso, apesar de chamar os capetas, você não seria um satanista… é como se estivesse fazendo reféns e obrigando o inimigo a trabalhar pra você, manja?”

“Cara, quem diria… Quer dizer que esses rituais de magia negra são coisa de crente?”

“Não é bem assim, calma lá… se você chegar com isso numa igreja evangélica, eles jogam você, o livro, e até o seu cachorro na fogueira. Os caras acham que estão do lado de Deus, mas quem concorda com isso ou não é outra história.”

“E o que você acha? Tão com Deus ou não?”

“Sério que você tá me perguntando isso? Como que eles podem ter ou não o apoio de um personagem fictício? Você acha que o Batman tá do seu lado?”

“Não fala assim. O Batman nunca me deixou na mão.”

“Tá bom. Olha aqui os demônios. Tem os nomes, selos, quantas legiões cada um comanda, o que cada um faz…”

Ele apontou para o selo de Buer. “Esse aqui dava uma tatuagem animal…”

“Ele ensina filosofia, ervas e plantas. Ou seja, o patrono dos maconheiros. Nada de mais. Tem uns que te teleportam, ou tocam fogo nos seus inimigos.”

“Então você quer dizer que o cara lá que eu tava falando desenhou um negocinho desses e invocou o coisa-ruim?”

“Eu não quero dizer nada, você é que tá contando a história. Mas deve ser algo nessa linha. Bem, na verdade é bem mais complicado, tem todo um ritual, cheio de inscrições mágicas, invocações, incensos, sei lá mais o quê, mas é por aí.”

“Mas peraí… o que eu quero saber é o seguinte: Cê acha que realmente veio alguma coisa? Alguma entidade, que deu poderes pra esse cara?”

“O que eu acho é que a psicologia explica muita coisa. De repente ele só precisava de mais autoconfiança, sei lá. Só o negócio da Helmbrecht que tá esquisito, mas ainda pode ser coincidência. Mas o que eu realmente sei é que eu só tô me baseando no que você disse, tá me entendendo? Eu precisaria conhecer esse tal clube do xadrez pra saber o que exatamente tá acontecendo por lá.”

“Você tá falando de se infiltrar no meio dos caras? Tipo, investigação mesmo?”

“Não viaja, ô mané!” Na verdade, era bem o que eu estava pensando mesmo. “Só dar uma sapeada, de curiosidade. Afinal, eu gosto de xadrez. Qual o problema de entrar pro clube? E eu aproveito pra saber como que ele fez pra ganhar esse dinheiro todo.”

“Tá acreditando na historinha de magia, né? Ah, rapaz, tô sabendo que você bem que tá com vontade de ajoelhar e beijar o rabo do capeta!”

“Eu só estou tomando uma atitude científica. Diante desse fenômeno curioso, eu pretendo observá-lo cuidadosamente, classificá-lo, e derivar uma conclusão equilibrada e imparcial com base nos princípios áureos da nobre ciência física.”

“Tá certo… Então, quer que eu te apresente o cara? De vez em quando ele aparece no mini-golfe, eu posso te levar lá. O nome dele é Bessa”

“Demorou. O Bessa que me aguarde, eu vou ensinar pra esses manés do xadrez um pouco sobre o que é real e o que é superstição.”

Entretanto, quem estava prestes a aprender era eu, e a lição seria longa.

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